Gastronomia por Roberta Sudbrack
27/10/2006 ..
Hell´s Kitchen tupiniquim, parte II!
Continua...
45 minutos só para mim?
Um sonho, literalmente! Mas o que fazer com esses preciosos momentos?
Nem sei mais, ando até desacostumada. Tinha que tomar cuidado senão perigava me lambuzar igual criança quando ganha muito chocolate!
E foi o que aconteceu.
Cheguei apressada, gritando: Fredão, Vó, cheguei!
Gritar Fredão: esse foi o meu erro.
Fredão já é o cachorro mais feliz da face terra sem fazer nenhum esforço. 40 quilos de pura alegria in natura e sem conservantes. Basta agitar e usar! Foi isso o que aconteceu: agitei!
Ele veio me receber como sempre, atordoado de saudades. Mas desta vez ainda mais atordoado pela excitação do chamado, ou seja, um estrago. Me derrubou com toda a sua delicadeza, caí de cabeça, rachei a testa e ralei os dois joelhos. Minha avó veio correndo e me encontrou estatelada no chão com Fredão inteiro por cima de mim! Feliz da vida!
Depois de muito sufoco e alguns biscoitos cream cracker (ele tem paixão!), conseguiu me resgatar, colocar um saco de gelo na minha cabeça, arnica nos meus joelhos e finalmente passar um café fresquinho, em coador de pano, claro.
Sentamos os três e tomamos café com biscoito cream cracker e geléia Bonne Maman belga, presente da nossa presidente Ana. Tomei meu banho correndo, claro!
Luciano formidável buzinou, desci entrei no carro e rumamos para o Jardim Botânico, pois ainda teríamos que passar na nossa casa laranja à beira do canal para pegar os pães que o Lucas estava assando “no momento”. Loucura, eu sei, mas, somos assim, o que fazer?
Normalmente o trânsito nessa hora é tranqüilo para esses lados e, como o Formidável me disse que a equipe ainda não tinha comido, resolvi parar para comprar o lanche.
Erro fatal! O maior trânsito, jamais visto por aquelas bandas, se colocou com toda a sua grandeza à nossa frente.
Lucas, vestido de cozinheiro, chapéu e tudo, passou pelo menos 30 minutos parado a beira do canal, com os pães à nossa espera. Cena digna de Almodóvar!
Enfim capturamos o Lucas e os pães e entrei, pela porta dos fundos, enquanto todos me esperavam pela porta principal do Casa Cor, às 20h23 – jantar marcado para 20h30 – esperando na cozinha um verdadeiro inferno digno de um epsódio de “Hell´s Kitchen”...
A cozinha estava um brinco, equipamentos instalados, fluxo alterado – eu sempre faço isso! – mise en place em ordem, SubSuper tranqüilo e a postos, só à espera da primeira comanda.
Faltavam só duas coisas: o som e o pão. Mas isso nós trouxemos!
Até!
26/10/2006 ..
Hell´s Kitchen tupiniquim
Ontem saímos da nossa casinha laranja à beira do canal como não fazíamos há muito tempo! Fechamos a casa e rumamos todos para o Casa Cor onde éramos esperados por quase 70 convidados para um jantar de gala!
Essa foi a minha grande escola (maravilhosa, diga-se de passagem): preparar jantares em lugares improvisados e sem a estrutura e a segurança de se estar dentro da nossa própria cozinha. Isso, apesar do estresse – que normalmente é absoluto – me deu uma bagagem fantástica para lidar com os imprevistos do dia-a-dia. E eles acontecem. Ah! Acontecem!
Certa vez, ainda em Brasília, fui preparar um jantar na casa de um casal para 12 pessoas. Normalmente fazia uma visita ao local para conversar um pouco, checar a cozinha, fazer literalmente um reconhecimento de área. Mas nessa vez estava com a semana caótica e não pude ir até o local. Liguei, conversei, tirei dúvidas. Perguntei tudo, coisas do tipo: tamanho da cozinha, distancia entre a cozinha e o salão, se a cozinha era equipada, tinha panelas, frigideiras – não vivo sem elas! – se tinha forno, fogão?
Tudo ótimo, só respostas positivas! Rumei para lá feliz e confiante levando apenas minhas facas e meu som! O desespero começou a tomar conta de mim assim que pisei na cozinha... Tudo estava lá: panelas, frigideiras, forno e fogão... O motivo do meu desespero era outro, o casal era recém casado! Fogão sim, mas de camping! Duas míseras boquinhas...
O jantar incluía um risoto, paixão dos donos da casa. Quem ousaria pensar em decepcionar desejos como esses? Eu? Claro que não. Afinal, vim ao mundo para realizar esses desejos!
Então, não me perguntem como, até hoje não sei, mas saiu e saiu bom. Idiossincrasias do destino!
Batalha vencida, aprendi uma lição: perguntar se tem fogão não está mais valendo, para valer a resposta tem que vir acompanhada por um dossiê sobre o mesmo, manual de funcionamento, garantia na validade e fotos coloridas do indivíduo!
Foi assim que aconteceu ontem. Claro que não pude ir até o local. Meu tempo anda mais do que precioso, anda sumido, nem eu o vejo mais. Nosso relacionamento anda mais do que desgastado!
Mas tenho uma equipe de reconhecimento do barulho liderada por Madame Filomena, nossa mais nova e querida aquisição na família SudPeolpe.
Madame Filomena fez várias viagens até o Casa Cor, munida de máquina fotográfica de última geração, questionários a serem devidamente preenchidos, assinados e carimbados e acima de tudo, olhos de águia para detectar qualquer suspeita de “furada”!
Tudo em cima, dossiê preparado, fechamos a nossa casinha e rumamos ladeira acima, primeiro uma parte da equipe, depois outra, depois outra.
Espera aí, e eu? Esqueceram de mim!
Meu carro estava com Luciano Formidável, que deveria me apanhar em casa às 19h em ponto, já que saí do restaurante às 18h e fui correndo tomar um banho e dar uma volta rápida com Frederico. Parecia que tudo sairia bem, conforme o combinado, planejado e sonhado.
Cheguei em casa às 18h15, ou seja, tinha inacreditáveis 45 minutos à minha espera! 45 minutos só para mim? Parecia um sonho, melhor do que calda quente de chocolate belga...
Ops! Acabaram os caracteres permitidos para hoje!
Continua...
Amanhã!
Até!
25/10/2006 ..
Ataques ao castelo de Mario Bros!
Outro dia brincamos de guerra de guardanapos depois da aula, no melhor estilo vídeo game. Mario Bros, para ser mais exata! E foi ótimo, volta à infância garantida, aos que tiveram infância... E a possibilidade de viver essa experiência, para lá de sensorial, aos que não tiveram!
Ontem, quando estávamos nos preparando para a volta ao mundo real, eis que a própria realidade vem e nos impede de voltar à realidade!
Fomos alvo de ataques ferozes, provavelmente provenientes de inimigos do Mario Bros! O castelo foi atacado, a Rainha foi alvo de seqüestros e os súditos se rebelaram! O alarme vermelho soou no grande reino do Ego e estamos todos em alerta e a postos para o que virá!
Preparados? Sempre!
Felizmente o estoque de “vidinhas” do Mario Bros está carregado, porque durante todo esse tempo que estamos por aqui nos divertimos muito! Fomos felizes até as últimas conseqüências! Sorrimos e gargalhamos juntos todos os dias. Cozinhamos, bebemos, confraternizamos feitos loucos!
Loucos pelo simples prazer de estar juntos, de viver o cotidiano da melhor e mais intensa maneira que for permitida, ou, que não for permitida! A gente não se preocupa com isso, a gente se preocupa com o respeito, com a alegria, com a vida! Simplesmente por ela existir e nos permitir esse encontro!
A gente gosta de geléia, de pão com manteiga, de cachorro, de flor de sal, de amizade, de pôr-do-sol, de dias nublados – mesmo sendo cariocas! – de chocolate, de vinho, de alegria e principalmente de simplicidade.
Estamos prontos para o que vier. Viva!
Até!
24/10/2006 ..
Tarde romântica na cozinha...
A aula foi assim, mais tranqüila do que de costume, mas nem por isso menos intensa. É claro que dançamos e cantamos feitos loucos ao som de “Independente futebol clube” do Ultraje a Rigor, nossa mais nova música queridinha!
E Volaire, claro! E até o Zeca em “Descobri que te amo demais”, que ficou acertado ser a música em homenagem ao T&D!
Mas a turma, apesar disso, esteve mais concentrada. Mais atenta, mais entregue às técnicas culinárias do que à loucura que as tardes na nossa cozinha costumam ser. O que é ótimo e, de certo modo, imprimiu um certo ar de romance à aula...
Quem bailou mais foram facas, tábuas, aspargos, vitela e os olhares intensos e curiosos de uma turma feliz.
Feliz na medida, coisa difícil.
Normalmente, quando adentramos a dimensão da felicidade, perdemos um pouco o senso, a razão, a normalidade, o que não é mal de vez em quando! Mas encontrar a linha tênue a ser explorada entre a euforia e a alegria na medida é coisa para gente grande.
A turma ontem foi de gente grande feliz!
O jantar ficou bárbaro, estava tudo delicioso, os aspargos croustillants, a salada niçoise – preparada com o nosso famoso atum branco confit – o risoto de alcachofrinha e jamón serrano, a vitela alla milanese e as desconcertantes mil folhas, tudo impecável e delicioso.
A conversa foi muitas vezes como a de uma família italiana, outras vezes de vizinho, mas sempre dinâmica, interessante e alegre.
A mímica – marca registrada dos finais do T&D - foi divertidíssima e acabou empatada! Apesar da minha grande atuação – aplaudida em cena aberta – de “Rapsódia em Agosto”!
E assim a aula terminou...Exatamente como não começou!
Voltamos todos a ser crianças de uma hora para outra e embarcamos sem medo de ser feliz na indescritível guerra de guardanapos! Embalados pela Adriana Calcanhotto ao som de: “Ah! Se eu fosso marinheiro”, que nós, muito abusados que somos, cantamos: “Ah! Se eu fosse cozinheiro!”
Momento inesquecível.
Moral de mais uma tarde na nossa cozinha: tão delicioso, intenso e incrível quanto experimentar a felicidade na medida certa, pode ser esquecer a medida de vez em quando e se atirar de cabeça!
Na vida e na cozinha!
Até!
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